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A opinião de quem nunca chumbou… Enquanto havia chumbos!

Estamos em novembro do ano de 2019 (século XXI) e há cerca de um mês foi apresentado o Programa do XXII Governo Constitucional. Tudo decorre dentro da normalidade possível para a época, até que surge, entre as propostas, o “Plano de não-retenção no Ensino Básico”.

Este plano inovador visa a poupança de 250 milhões de euros, por ano, ao Estado, uma vez que é este o valor gasto com as reprovações de cerca de 50 mil alunos entre o 1º e o 9º ano.

Todos sabemos (até aqueles que ficaram retidos nalgum ano da sua formação) que a realidade económica do país não é a melhor e, como tal, poupar anualmente 250 milhões de euros é, de facto, uma ajuda ao Estado que poderá utilizar esse fundo para aplicar em áreas deficitárias, como a saúde, ou a justiça, ou a segurança, ou até noutros ramos da educação… Mas alguém pensou no custo não monetário desta medida? Alguém pensou em quem vão ser os adultos do futuro?

Apesar de não ser formada em Psicologia, nem ter conhecimentos aprofundados na área, reconheço a necessidade de adaptar o discurso de um adulto a uma criança ou adolescente, por forma a que este compreenda a mensagem que queremos transmitir. Habitualmente essa adaptação passa por fazer referência a algo percetível pela criança, ou por estabelecer sequências lógicas e simples.  Lembrome, por exemplo, do “homem do saco” que ia buscar as crianças que não obedeciam aos pais, no século XX. Também me lembro de ouvir “se não estudares tens más notas e chumbas”. O “homem do saco” passou a ser “chumbar”. Mais tarde, o discurso transformou-se em “estuda para poderes escolher a profissão que queres quando fores adulta”. E mais tarde ouvia “é importante termos alguns conhecimentos para vivermos integrados na sociedade”.

Estamos no século XXI, e, mais que uma crise económica, sinto que vivemos uma crise de valores e conhecimento, onde adolescentes com 12 anos não são capazes de localizar Portugal no continente europeu (porque o único continente que conhecem é o supermercado). Crise essa que advém da sobrecarga de trabalho dos pais, que não têm disponibilidade para transmitir aos filhos, de forma adaptada, aquilo que é básico e necessário. E agora do Governo, que deixará de investir 5 mil euros por aluno quando esse não tem os conhecimentos básicos (adquiridos no ensino homónimo) para progredir profissional e socialmente. Governo que permitirá que um adolescente de 12 anos progrida nos seus estudos sem conhecer a localização do seu país.

Enquanto escrevia, lembrei-me de quando tinha 12 anos e frequentava o 7º ano. Na minha turma estava um colega com 15 anos. Tinha alguns problemas de socialização e aprendizagem e, por isso reprovou alguns anos, no Ensino Básico. O Estado gastou vários milhares de euros com ele. Entretanto alguém adaptou o discurso a esse adolescente e ele manteve-se por lá até adquirir os conhecimentos necessários para concluir o 9º ano, e depois o 12º.  Atualmente tem um emprego estável, família constituída e vida social que o satisfaz. Também sabe que Portugal fica localizado na Europa.

Gostaria de terminar referindo que o título deste texto não pretende demonstrar qualquer tipo de vaidade, uma vez que o discurso adaptado que ouvi em criança foi “não chumbar não é um orgulho, é uma obrigação”. Foram os valores que os meus pais tiveram disponibilidade para transmitir e, com isso, pouparam, pelo menos, cinco mil euros ao Estado. Mas se não poupassem, o Estado estava disposto a investir mais cinco mil euros na minha formação, porque é com os conhecimentos dos adultos do futuro que se vai construir o país e o Estado do futuro.

 

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