Blog

Há aqui um ou dois equívocos

Desculpem-me se já lá vão praticamente 3 semanas (passa mesmo a correr) desde que os portugueses foram convocados a decidir de que forma pretendem continuar a ser governados mas, enquanto não entramos no propriamente dito “mar alto” da governação e da sessão legislativa, não resisto a expressar aqui alguns pontos de reflexão que me têm apoquentado em matéria de análise política.

Ora bem. Tenho como ponto de partida desta minha nuvem de inquietude o dia 4 de outubro de 2015, data em que o Secretário-Geral do Partido Socialista fez duas coisas: perder as eleições e recusar que as tinha perdido. Com esta opção, António Costa renunciou à partida a um cenário de oposição exigente e construtiva a um governo vencedor – ainda que minoritário – do sufrágio popular, num contexto de evidentes primeiros sinais de recuperação  do descalabro económico-financeiro a que um governo socialista nos conduziu e do qual ele próprio fazia parte, para protagonizar oportunisticamente a implantação de um clima de puro cinismo político, governativo e parlamentar. Para se fazer vencedor, António Costa consentiu abrir o precedente de fazer a governação depender da sintonia com forças políticas com uma visão míope para o futuro do país, tendo ele próprio bem noção disso. Sob o mote de uma pretensa união das esquerdas, pairou durante estes quatro anos o primeiro equívoco: de que é possível alinha a irreverência e radicalismo ideológico com a necessária moderação necessária para desenvolver um país como o nosso. Com este equívoco, veio outro: o de tolerarmos que, no seio do nosso quadro político, as mesmas forças políticas que assumem sustentar um governo minoritário ora reclamem para si as vitórias das opções políticas que reivindicam, ora se escusem de assumir a contra-partida da consequência de qualquer opção política que tenha ficado para trás em detrimento das primeiras. Isto não faz sentido nenhum e nada contribui para fasquia de integridade e responsabilidade que devemos exigir a quem ousa definir o nosso destino coletivo.

Mas há um outro equívoco, esse com origem mais longínqua, que António Costa veio reforçar ao chamar a palco tais protagonistas políticos: a ideia de que algum dia haveremos de prosperar sustentadamente enquanto abominarmos a iniciativa privada, a livre iniciativa económica e a criação de riqueza nacional por vias tendencialmente independentes do Estado; enquanto não conseguirmos ver nos agentes do tecido empresarial e empreendedor verdadeiros parceiros com visão, arrojo e capacidade para potenciar a inovação e conferir maior robustez e estabilidade aos setores laborais e garantindo, por sua vez, maior qualidade de vida às pessoas; enquanto não assumirmos coletivamente  que, uma vez conferida essa responsabilidade ao tecido económico, deve o Estado, sim, reforçar a sua capacidade de conceber modelos fortes, eficientes e efetivos de suportar a dinâmica da sociedade nos domínios da Saúde, da Educação e da Segurança Social. A propósito disto, o derradeiro equívoco: o governo e o discurso geringongêntrico caminharam durante quatro anos sem definir ou implementar qualquer melhoria estrutural a qualquer um destes setores (a Saúde é um exemplo flagrante e preocupante), mas ainda assim criaram-se 350 mil postos de trabalho e, à boleia da conjuntura internacional e das economias que ambicionam fazer crescer o bolo para que não haja tanta dificuldade em reparti-lo, foi possível acrescentar umas unidades ao PIB. Isto quer dizer, pura e simplesmente, que o modelo não serve. Nem serve este, que mais não foi do que gestão corrente e malabarismo eleitoral, nem serve um outro que se foque apenas em garantir a fluidez da economia de mercado ou, pelo contrário, se foque exclusivamente na coleta de riqueza alheia. Portugal precisa de reconhecer e aceitar, inevitavelmente, uma cultura de equilíbrio e compromisso com os dois lados da moeda, numa base de moderação, com progresso e sustentabilidade. E a este respeito, há também um equívoco crítico e que importa desfazer: o de que o PSD perdeu a capacidade coletiva plural de dar resposta a esse desígnio. É Por Portugal, ou não é?

O 25 de abril deu-nos liberdade. Já vai sendo tempo de, também em sua homenagem, não termos receio de ambicionar prosperidade.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *